domingo, 5 de dezembro de 2010

CHURROS & SONHOS






          Surgiu uma novidade gastronômica em meu bairro, era um tal de “churros”. O nome era pra lá de sugestivo para mim. A palavra “churros” me remetia a outra deliciosa palavra: “churrasco”. Não que eu já houvesse experimentado as delícias de um bom churrasco naquela época em que eu mal tinha saído das fraldas, mas já tinha ouvido falar algumas maravilhas do tal. Vindo de uma família muito humilde, lá do subúrbio, os arroubos gastronômicos não eram tradição familiar, aliás, só o fato de conseguir o prodígio de associar “churros” com “churrasco” já dá uma boa dimensão do meu conhecimento sobre o tema. O máximo de concessão que nos era permitido era um fabuloso misto quente com uma fanta laranja, na época a fanta só tinha este sabor. Era um manjar que eu só era digno de receber de tempos em tempos quando saía com minha mãe sem a companhia de meus outros irmãos que fariam a conta se tornar muito salgada e a farra, regada a misto e fanta, inviável.

          Além do nome atrativo, a preparação do churros seguia todo um ritual antes de ser entregue ao ávido cliente. Este ritual fazia-o ainda mais sedutor: Era necessário esperar-lhe a fritura, depois uma lambuzada com açúcar e canela e, por último, mas não menos importante, havia a necessidade de introduzir-lhe a deliciosa calda de leite condensado. Só então ele estava pronto para ser degustado pelos mais finos paladares. Eu ficava ali, maravilhado, vendo a fila quilométrica, pessoas saindo, cada qual com sua obra de arte, enquanto todo aquele ritual se repetia vezes sem fim à minha frente.

          Mas havia um pequeno problema: eu não tinha o dinheiro para comprar um. Dinheiro para lanche era um luxo que eu não tinha, pelo menos não o suficiente para bancar tal iguaria. Todavia, ao sonhador nenhum obstáculo por mais grandioso que seja é suficiente para impedir-lhe a marcha até o alvo dos seus devaneios. E, naquele momento, o churros era o alvo dos meus mais palpáveis desejos, sim porque haviam outros que me eram francamente impossíveis. Comecei a economizar cada centavo que me caía às mãos, juntei diligentemente as moedinhas até que, um belo dia, eu tinha o suficiente para realizar o meu sonho, o primeiro desses que a gente tem de olhos abertos.

          Segui o ritual ansiosamente. Entrei na fila. Cada lento passo que dava em direção ao carrinho de churros era como um golpe em minhas papilas gustativas. O momento ia chegando, via passando os felizardos carregando seus troféus deliciosos que desfilavam à minha frente. Meu sonho a cada passo ia se tornando, literalmente, uma doce realidade. Cheguei até o carrinho, dei os trocados e assisti extasiado o ritual que conhecia já de cor: Churros frito, lambuzado na canela com açúcar, e finalmente o detalhe delicioso do recheio de leite condensado. Maravilha! O churros me foi entregue. Finalmente estava eu face a face com o meu sonho.

          Saí da fila. Escolhi um cantinho solitário. Dei a mordida a muito esperada e...

          O que é isto?

          A primeira dentada trouxe um sentimento de estranhamento. Por um momento achei que o tal churros era um pouco doce demais para o meu paladar. Dei a segunda mordida, desta vez não achei que era doce, tive certeza! O meu sonho se revelou uma doce realidade. Enjoativamente doce. Não consegui dar a terceira mordida. Disfarçadamente lancei meu sonho na primeira lata de lixo que encontrei, meio sem graça segui meu caminho. Eu era jovem, outros sonhos viriam, mas este primeiro sonho frustrado me fez conhecer por vivência uma palavra que eu ainda não conhecia: “decepção”.

          Sonhos. Não podemos viver sem eles. Mas, raros são aqueles que quando realizados chegam a se comparar com os momentos em que eram fecundados no mundo das idéias. Muitos deles são como os churros foram para mim: não valem sequer a terceira mordida. Eu dei sorte, perdi apenas alguns dias de minhas economias, mas há sonhos que são bem mais caros do que os trocados que juntei: cobram o preço da negação. Quantos de nós atrás de sonhos não perdemos um amor, a comunhão familiar, a humildade, os velhos amigos. Quantos não perderam a si mesmos atrás de um sonho?

          O churros talvez não seja tão insuportavelmente doce quanto eu achei, tanto que faz sucesso até hoje. O problema não estava no churros e sim nas expectativas que depositei nele. Nas expectativas não atendidas está o motor das grandes decepções. Não raro, vemos que aquilo que recebemos não corresponde àquilo que sonhamos e isto nos traz a sensação de ter vivido sem viver.

          Bom seria que pudéssemos habitar em um mundo em que churros e amores fossem perfeitos. Mas tal mundo ainda não está ao nosso alcance, enquanto estivermos aqui teremos sempre que lidar com frustrações, viver é estar em permanente estado de descobertas, algumas boas, outras nem tanto. O sonho é uma necessidade, mas existem sonhos que já temos em nossas mãos e que, por serem reais, muitas vezes não valorizamos. Sonhos reais de coisas simples e significativas, como uma família que nos ama, ou uma amizade verdadeira, ou ainda a possibilidade de sentir a brisa da manhã, ou um pôr-do-sol, ri sozinho de nossas bobagens, ou das bobagens de outros, ou curtir uma boa música, ao lado de alguém ou mesmo sozinho, quantos sonhos reais nós temos e não vemos. As coisas essenciais são muito mais baratas do que aquilo que é supérfluo, talvez por isso não lhe damos valor e só enxergamos o quanto são significantes quando as perdemos e passam a ser sonhos sonhados com sabor de nostalgia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário